
Quem será aquele que ao bater na porta,
Com chaves, ferramentas, martelos e brocas,
Feito um eletricista ou técnico, pequena gaivota,
Fará de meu coração empedrado, rosas?
Quem é aquele que cavalgando com deuses,
Entendeu meus chamados sem perder-se,
E que no intento de um coração bravo,
Não se cansa de lutar até vencer me?
Quem de belo rosto juvenil,
Que de tantos chamados que ouviu,
Vem sorrateiro pelos campos serenos,
Trazendo consigo suaves venenos?
Como um boticário que numa poção suave,
Faz me sucumbir a gotas como se fossem tempestades,
Que com um delicado sorriso sabe,
Desfazer todos os embaraços e entraves.
Sutil, terrivelmente sutil,
Passa por mim despercebido,
Até que o veja, já tem mil vezes me visto,
E transborda de desejos escondidos.
E quando de noite a escuridão se deita,
Por caminhos tortuosos vagueia,
De encontro a todos os sonhos que anseia,
Resta-lhe um pouco de pão, tua ceia.
Até que novamente destemido andarilho,
Poe-se a me buscar pelo caminho,
Sem medo e sem frio, um homem faminto,
Do amor que de sua busca é destino.

Cante alto agora senhora da neblina,
Com a primavera todas as sementes germinam,
Coloco me a correr pelos campos feito menina,
E todas as dores e prantos se findam.
Venha com um sorriso solto,
Sobre cedros, malicioso, maroto,
Venha com o perfume gostoso,
Correndo brincalhão sobre os morros.
Ainda que entre as flores,
Tudo o que sinto são odores,
Suaves flagrâncias doces,
De teu corpo repleto de amores.
Então venha e torna-te meu consorte,
Que surge como meu amante na noite, sua eleita,
E quando a alvorada sobre o céu se deita,
Nossos corpos unidos se deleitam.
E assim quando a primavera se for,
Mesmo longe de teu corpo, teu amor,
Eu sempre terei momentos para lembrar,
Da primavera eterna, que nunca irá findar.
Dentro de meu peito sereno por tua presença,
Mesmo distante seu retorno esperando serena,
Da primavera que juntos estivemos numa pequena cena,
Jamais será esquecida, por esta que agora lhe acena.

O ar começa soprar um pouco mais quente, flores multicoloridas saltam pelos jardins,
A primavera saltando diante de meus olhos, mas questiono qual a diferença por fim,
Se tudo o que eu vejo ou toco está bem longe de mim, como que presa numa cela de vidro,
Gritando a todo o momento, sem poder quebrar aquelas paredes que me impede de sair.
E assim eu sigo pelo caminho florido das esperanças efêmeras berrando para que me libertem,
É como estar numa cidade e não ser vista, por ter recebido o dom de tornar-se invisível,
Que desgraça me foi lançada por este caminho, procuro os que se parecem comigo,
Talvez seja esta pequena significância insignificante, unindo ao antigo e com eles ser esquecido.
Por um minuto julguei não estar mais neste mundo, por um breve momento pensei ser tocada,
Mas lamento em minha ingenuidade estar para sempre condenada vivendo num lugar selvagem,
Eu poderia ao menos ter recebido a dádiva de permanecer na ignorância sem ter de trilhar caminho tão árduo,
Por um breve momento sorrio, dentro de meu próprio lamaçal como quem acha nisso alguma graça.
O frio ainda me assola e cada passo é tão dolorido como os primeiros passos dados por este caminho,
Uma mulher diante de mim, como o único ser a poder notar minha presença, lhe entrego uma pedra,
Corro dentro da gélida escuridão e como num passe de mágica acendo todas as tochas,
A luz e o calor devem me fazer sentir um pouco mais vida e talvez façam desistir da morbidez que se instalou.
Nenhuma mísera lágrima derramada dentro de tantas lamentações, acostumei-me a esta hostilidade,
Nenhuma brisa suave a refrescar-me, preciso sentir todo este calor, uma chama ardente acendendo-se dentro de mim,
Há um desejo ardente que deve morrer, há uma dor permanente que deve aliviar-se, há um novo tempo chegando,
Há uma cidade acesa em algum outro lugar, então o futuro que desejo se faz e a prisão de vidro é quebrada.

Preciso beber até cair,
Preciso admirar o que eu ainda não pude,
Preciso conquistar novos lugares,
Preciso ansiar por pessoas diferentes,
Preciso entender o meu mundo,
Quero desvendar minha realidade,
Quero ter todas as armas na mão,
Preciso mudar a realidade,
Tenho de ser sincera,
Tenho de amar de qualquer forma,
Tenho de estar pronta,
Tenho de ser corajosa.
Não importa o que aconteça,
Posso chorar, mas tenho de ser guerreira,
Tenho cem armas na mão e nenhuma,
Tenho todas as possibilidades e mais um tanto que perdi.
Ah... Mas eu ainda preciso te conhecer,
Preciso entender um pouco do seu mundo,
Preciso conhecer suas fraquezas
E avaliar toda a força que possui.
Eu preciso negar até a morte,
E mentir para que me entenda.
Eu preciso ver o sol brilhando,
E todas as flores da primavera.
Preciso ouvir minha musica preferida,
Ler um livro conhecido,
Assistir um velho filme,
Fingir ter entendido.
E não importa mais qualquer assunto,
Eu estou presa bem longe deste mundo,
Eu estou procurando mais uma razão,
E talvez eu alcance a compreensão.
Por fim, eu talvez tenha entendido,
Que embora ansiando por tanto,
Eu tenha me esquecido,
De lembrar de que nada preciso.

Ela grita sem parar, joga todos os objetos que estão sobre os móveis na parede, chora de forma dolorida e sente que seu corpo se desfalecerá a qualquer momento, sua tristeza lhe consome como um animal faminto, ela grita com ele mais uma vez, o sacode apertando-lhe sobre os ombros, ele sequer ergue o olhar, como que se estivesse completamente decidido em sua decisão. Ela se joga ao chão e lá fica chorando imóvel, não há mais nada para se fazer, nada do que fizesse chamaria a atenção daquele que senta silencioso e pensativo sobre o sofá.
Ele se levanta e caminha calado até a cozinha, pegando uma garrafa de vinho ao qual consome novamente sentado no sofá, bebendo diretamente no gargalo da garrafa. Ela novamente olha para ele e se sente inconformada com a frieza daquele que a observa, sem derramar qualquer lágrima, sem se preocupar com qualquer reação, seguro em si mesmo como que se houvesse calculado friamente todos os movimentos dela, como que soubesse o próximo passo a ser dado.
Ela se levanta do chão, ainda em lágrimas, triste pela frieza e aspereza daquele em silêncio, ele devia estar magoado tanto quanto ela, pois há tempos construíram um muro de gelo para que nada que viesse do outro ultrapassasse, ele devia estar também triste pela distância que criaram de seus seres, ela de súbito enlouqueceu com a ausência de carinho, diálogos e afeição, ela simplesmente foi acometida por uma onda de sentimentos maiores do que pudesse suportar, não havia para ela como manter aquele relacionamento sem haver qualquer tipo de troca e naquele dia, sua insatisfação abateu-lhe o espírito forte e estava disposta a fazer ele enxergar sua insatisfação mesmo que tivesse que quebrar toda a casa.
Mas, nada do que fazia parecia fazer aquele sentir o que sentia, ele não poderia compreender nada do que dizia e sequer seus gritos eram ouvidos como sussurros suaves ao vento, ele estava distante como sempre esteve e ele estava calado como sempre esteve, nada mais tocaria ele, porque o castelo em que construiu para si mesmo o impedia de sentir qualquer coisa externa e nada mais lhe tocaria. Compreendendo, beijou-lhe a face e foi para o quarto decidida em fazer suas malas para partir para bem longe daquele que lhe desferia um golpe mortal com sua espada de frieza, e sentindo o calor do beijo de despedida dela, ele chorou e a abraçou atrasando sua decisão de partir.
Porém, ela se livrou do abraço dele, seguindo em seu intento e fez as malas, agora era tarde demais, a frieza dele vencera fazendo o pouco calor que havia dentro dela sucumbir a geada e nada mais restava para ela, sequer uma esperança e ao novamente olhar para ele, em seu choro profundo, disse com pesar:
- Agora quem diminuirá a distancia que há entre nós é você e não eu, e até que me mostre o seu calor de verdade, ficarei sempre com minha impressão do frio que me mata, evitando o que me fere, conseqüentemente evitando você. Não mais me esforçarei em vão, sinta a dor que eu sinto e assim eu ficarei feliz, sinta minha falta como sinto a sua e assim eu sorrirei, sinta o amor que sinto por você e sofra com ele e assim eu serei feliz. Até que estejamos prontos para viver juntos novamente.
Ela saiu da casa, deixando-o imerso em seu próprio pranto.

Ele caminha em minha direção, um espírito, uma mistura de homem e peixe,
Sinto como que se todo o oceano viesse para cima de mim, posso sentir o salgado da água na boca seca,
Um palácio emerge das águas que me tomam e ele continua lá, ereto e calado, com corpos de afogados ao seu redor,
Ele coloca ao redor de meu pescoço um colar de pérolas e em meu tornozelo algumas conchas penduradas numa linha de nylon e um anzol.
Sua voz é como as ondas que batem violentas contra as pedras; e sua face lembra-me o mar sereno numa tarde fresca,
Ele me beija a boca suavemente e meu corpo se dissolve transformando-se em água, como uma serpente, danço a melodia do mar,
E corro por águas infindas sem qualquer destino, observando o nascimento e a morte dos homens, observando o mundo que abre diante de meus olhos,
Sentamos numa pequena ilha, torno-me a mulher que eu sou, com algas no lugar de meus cabelos.
Em silêncio observamos uma mulher que rende homenagens ao mar, entregando-lhe uma oferenda,
Em seus olhos há lágrimas e sua prece se volta para o retorno seguro de seu homem, seu coração arde junto com sua prece,
Ela então entra junto com o cesto dentro do mar, e o leva o mais longe que ela consegue chegar,
Milhares de seres se levantam nas águas cristalinas, tomando para eles o cesto e levando para o palácio onde estive há horas atrás.
Então eu posso ouvir o canto suave saindo das ondas, uma melodia muito bela e muito triste, um louvor ao deus do mar,
Eu também me coloco a cantar a melodia que pareço conhecer bem, novamente meu corpo se dissolve em água e ponho me a correr pelo mar,
Nada sabemos sobre a morte ou sobre a vida, nada sabemos sobre o morrer e o renascer, somente deslizamos na água salgada,
E as lágrimas dos homens são somente algumas gotas do oceano que têm dentro deles.

No momento em que eu pensei que eu não sentiria mais nada,
Como que se eu estivesse definitivamente calada sob o tumulo,
Eu ouvi você chamar meu nome e senti você espetando uma parte de meu corpo,
E eu quis me manter calada, para que não soubesse o estrago que faz em mim.
Talvez não saiba mesmo o estrago que faz, talvez sequer tenha notado,
Eu realmente estou me tornando a melhor atriz que eu poderia encontrar,
Embora reconhece que eu te admiro e admiro ainda mais sua inteligência,
Eu jamais deixaria que soubesse a loucura que reina em mim agora.
Admitir pra mim mesma tem sido o mais difícil dentro deste insano mundo,
E a solidão de meu caminho parece me assolar sempre que eu me aproximo de você,
Nós entenderíamos nossas esquisitices completamente,
E nós acharíamos totalmente dentro da normalidade nossa maluquice.
Mas, por trás de todas estas máscaras você ainda consegue me reconhecer,
Sem qualquer noção do perigo, você sabe que pode confiar em mim,
Você se lança em mim como se eu fosse um insinuante abismo,
E sequer se importa com minha profundidade.
Quanta insanidade... Qual de nós dois está mais louco?
Um pouco adiante disso tudo seremos reais?
Ou somente dois espíritos a vagar por este mundo surreal?
Ou uma sombra do que foi que sabe tudo o que virá?
Não, eu não sei nada das coisas que estão por vir,
Eu sequer sei qual o seu passatempo preferido, embora faça parte dele,
Horas e horas a fio conversando, sequer sinto a falta da vida lá fora,
E quando não está mais perto, sequer sinto falta da vida lá fora, sufocada pela saudade que sinto de você.
Deixemos o tempo ser o senhor da razão,
Enquanto isso, conto as linhas e coordeno nossas vidas,
Preparando-as para o que virá, seja o que for que tiver pra ser,
É sem nexo, eu sei, mas eu precisava falar só mais um pouco de você.

Na noite quando a lua cresce,
Silenciosa dentro da noite que todos adormecem,
Com um suave manto você é coberto,
Afastando os maus que estão por perto.
Eu acaricio seus cabelos suavemente,
Beijo-lhe os lábios instando-lhe benção,
Eles tornam para tirar nossa paz novamente,
Mas protejo-te evitando a aproximação.
Eu não tenho medo disto,
Mesmo em campos sinistros,
Preocupo me somente contigo,
Por Thor está protegido.
Eu então continuo a dançar,
Sob a chuva que esconde o luar,
Rodeada por espíritos antigos,
Despreocupada, sigo meu caminho.
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