O Choro

Sentada em silêncio sobre uma pedra, observo o oceano,

A tempestade cai forte sobre minha cabeça,

As ondas altas, o mar furioso, nenhuma proteção,

Ouço uivos no vento, acredito que estou correndo perigo.

Não movo sequer um dedo, hipnotizada,

As ondas parecem desenhar teu rosto,

Afinal eu não sei se você é um deus ou um homem,

Sei somente que deixo a chuva lavar meu corpo.

Observo calada todas as feridas abertas que tenho,

Olho ao lado uma poça que mistura águas e meu sangue,

Sou eu a própria oferenda dos deuses, sou eu o sacrifício,

E seu rosto nas ondas, você no mar, no mar revolto.

Um homem velho, com seu chapéu e uma capa de chuva senta ao meu lado,

Permanece calado, com um leve sorriso nos lábios,

Ele me olha com ternura no olhar e toca minha mão,

Todo meu corpo estremece e despenco num choro profundo.

Levanto minha cabeça como se tivesse um orgulho a zelar,

Entre as nuvens negras um raio de luz, um arco-íris no horizonte,

Eu então aperto a mão do homem, deixando-a descansar sobre minha perna,

Um pouco mais humana, um pouco mais deusa e uma parte de mim falece.



Postado por: Hedra às 23h18
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A Imagem

Em meio a forte tempestade e com a distância a nos separar,

Penso em tantas coisas quando olho a sua imagem. Estou louca?

Pode ser por causa da dor que sinto em meu peito neste momento,

Pode ser por tudo o que descobri sobre nós estes dias.

Mas, não importa na verdade, quando eu olho sua imagem,

Sei que quero sentir o perfume de seus cabelos, sentir teu hálito,

Quero tocar pra ver se existe mesmo, se não é criação de meus delírios,

Quero sentir teu calor e entender que está vivo e que não é somente uma imagem.

Porque quando me vejo sem saída, ensandecida te vejo ao meu lado,

Quando eu me sinto entregue aos deuses como sacrifício, você que recolhe meu sangue,

É você que me faz saltar da cama, quando eu acordo preguiçosa,

E acredito que hoje eu queria entender isso, querido, só entender.

Nós estamos perdidos, vivendo uma vida desnecessária, arrastando os dias,

De repente esta visão maluca acabe quando nos olharmos,

E acreditarmos que estamos vivos, termos a certeza de que somos isso,

Será como bonecos de barros tomando vida própria, isso é estranho...

Eu queria dar um sentido maior para vida e te encontrei pelo caminho,

Pelo o caminho ou em qualquer outro lugar, ou em lugar algum,

Mas eu te busco, como um ideal, como um sonho, não somente uma imagem,

Talvez eu só tenha que entender que eu estou um pouco fora de mim.

Tem horas que eu acho que esta imagem que eu tanto amo é inalcançável,

Dou a você todos os defeitos do mundo, juro que tento te odiar todo o tempo,

Tento acreditar que você gosta de homens, que é um psicopata, um assassino,

Ou ainda que eu que estou louca, ou que eu que não estou entendendo nada.

Você tinha que ser tão amável? Tinha que ser tão paciente?

Por que tinha que gostar de conversar tanto comigo? Eu te faço bem, não é mesmo?

Eu te faço bem e você me enlouquece, pois eu sou de carne e osso, você uma imagem,

Que eu jamais toquei, que eu jamais senti, então por que estes sentimentos agora?

Silencio-me e me afasto, afasto-me da sua imagem, tão perigosa e inocente,

Eu me escondo de você, eu me escondo dentro de meu quarto, assim é melhor,

Acendo um cigarro, deixo algumas lágrimas loucas deslizarem sobre a face,

E observo todos os espíritos alegres que dançam debaixo da tempestade.



Postado por: Hedra às 22h31
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Surto

Inspiração é algo complicado, num momento seco de sua vida você a tem de monte e quando realmente quer se expressar ela simplesmente desaparece,

Ah, mas ainda há aqueles que nos inspiram de uma forma de outra, seja por odiarmos, seja por escreverem algo que vale ler, mesmo não o suportando,

Sentimentozinho miserável este que nos deixa perplexos num amontoado de pensamentos excluídos e desconexos, eu não estou me importando ainda, não ainda...

Nem vou falar também que o mundo perdeu seu centro, que as pessoas andam loucas, que os deuses mais doidos ainda e a tragédia, bem, a tragédia virou comédia.

Vidazinha sem vergonha essa que inventamos de viver todos os dias, cheia de suas malandragens, colocando pessoas lindas em nosso caminho e nos privando de toca-las,

Quando não estamos desgostosos e desgastados com essas, acho que isso é um pouco pior que simplesmente tocar o barco, amar desconsiderando o amor que poderia ser sentido através dela,

Que mania impecável a minha de sempre amar o que é suburbano, o que é podre e fétido, gélido como o vento do norte, frio como o corte afiado da espada,

Mas, o pior é que eu ainda não me importo, não me importo mesmo e tenho não me importado com muitas coisas importantes, está aí mais uma delas,

Cansei desse papo chato, safado e sem vergonha de um sorriso deixado na esquina dessa cidade suja e empoeirada, um rabisco mal feito na porta de um banheiro público.

Quero dar só mais um trago neste cigarro, ouvir o cachorro uivando doloridamente no mundo lá fora enquanto algumas linhas soltas preenchem esta folha sem sentido,

Um amontoado de pensamentos e sentimentos seria dar uma definição qualquer pra tudo isso. Cara olha pra isso, tem coragem mesmo de chegar até aqui e me dizer, tudo bem, querida, está tudo perfeito?

Porque de fato, eu lhe olharia com a desconfiança de um lobo prestes a ser atacado e eu lhe atacaria com todas as armas antiamor que eu tenho guardado dentro de mim por anos!

E se você ainda permanecesse no silêncio, no silêncio que você decidiu quebrar por um momento, um momento que me durou toda a eternidade e que me levou a milhas longe daqui,

Eu diria que você é o maior ladrão da realidade pura e simples que eu tenho durante dias infindos que eu não abandonaria por um simples olhar de cachorro manso, ou largaria?

Basta! Chega de conflitos vazios que não me leva para lugar algum, eu estou mesmo surpresa de que você chegou até aqui, até aqui, querido, ultrapassou todas as barreiras,

Não de som ou da luz, ou mesmo um muro de concreto, mas um muro que eu ensandecida crie para que nada além de minha própria dor e tristeza ultrapassasse,

E você ainda permanece aqui, de pé, firme e forte lendo este discurso barato de uma insana que trocou o bom-senso de beber uma boa cerveja enquanto a musica toca no radio velho,

Para preencher páginas em branco com uma história maluca, no mínimo doente, lhe fazendo chegar até aqui em baixo, onde os rios desembocam, e ainda me dizer: tudo perfeito, querida!

Não, não me trate com carinho, me deixe numa posição confortável, numa simples posição confortável, onde pensamentos possam maravilhosamente fluir dentro do surto!

 

Ao som de Moonshield  - In Flames



Postado por: Hedra às 22h45
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Fernando Pessoa

Alberto Caeiro
 
Novas Poesias Inéditas
 
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem  alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo :  "Fui  eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.



Postado por: Hedra às 19h55
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Um dia

Um dia eu serei aquela que lhe observa na cama, saciada de um amor velho e invencível,

Um dia eu perceberei todas as coisas que eu ainda não percebi, perceberei nosso trato e toque,

Um dia eu serei a quem você recorrerá nos seus dias tristes e a quem você buscará por conselhos,

Um dia nossa vida será uma só, nossos dias a nossa história e nossa individualidade ainda será preservada.

Um dia eu amanhecerei com o seu sorriso, com o toque quente e suave do sol nos espiando pela janela,

Um dia você provará de meus beijos, de meus abraços quentes e de meus desejos lascivos,

Um dia eu terei lido todos os livros que você aprecia e você terá ouvido todas as musicas que amo,

Um dia eu serei a dona do lar, a esposa perfeita, a amante insaciável, a mãe acolhedora e você não terá do que reclamar.

Um dia cultuaremos nossos deuses juntos, faremos ofertas e dançaremos numa grande festa,

Um dia seus amigos serão meus e os meus seus, e, formaremos assim uma família maior do que já possuímos,

Um dia eu chorarei em seus braços e em seu acalento me sentirei uma frágil criança protegida por seu amor,

Um dia todos esses dias terão a data certa e nem me preocuparei novamente com o que possa acontecer um dia.



Postado por: Hedra às 05h36
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